
O Amapá acaba de ser apresentado a uma nova modalidade de ativismo político: o “Feminismo de Conveniência”, brilhantemente estrelado pela EX-primeira-dama e candidata, Dra. Rayssa Furlan.
Neste último final de semana, durante a Corrida e Caminhada da Mulher contra o feminicídio em Laranjal do Jari, a Dra. Rayssa SE DIZ foi palco de um triste episódio de bate-boca com um assessor do governo estadual. O que se viu logo em seguida foi uma mobilização digna de Oscar: boletim de ocorrência lavrado a jato, vídeos nas redes sociais, discursos inflamados sobre “violência política de gênero” e notas de repúdio contra o machismo estrutural que tenta “silenciar vozes femininas”.
É comovente. É de arrancar lágrimas. Seria até inspirador, se não tivéssemos memória.
A indignação da EX- primeira-dama, ao que parece, sofre de um curioso problema de geolocalização. Quando a “violência contra a mulher” acontece no Jari, cometida por opositores políticos, os holofotes se acendem e a revolta é ensurdecedora. Mas e quando o agressor tinha crachá da Prefeitura de Macapá e despacha a duas portas do gabinete do marido? Aí, meus amigos, o silêncio é tão profundo que dá para ouvir um alfinete cair.
Voltemos um pouquinho no tempo, há poucos meses, quando o alto escalão da gestão de Dr. Furlan virou uma verdadeira manchete policial.
Tivemos o caso do Secretário de Assistência Social (vejam só a ironia da pasta), Pedro Filé. A ex-esposa registrou boletim de ocorrência detalhando um cenário de terror: cárcere privado, trancada no quarto, senhas hackeadas, contas bancárias bloqueadas e ameaças de exposição de fotos íntimas. Logo depois, veio à tona o Secretário de Desenvolvimento Integrado, Nildo Nunes, denunciado por distribuir socos e cotoveladas no rosto da esposa, na frente dos filhos pequenos, além de ofendê-la e aterrorizar seu psicológico. sem falar no atual Deputado da base de Dr. Furlan RNelson e o Ex-Secretário Madson Millor…

Diante de casos tão brutais, reais e físicos de violência doméstica dentro do próprio “quintal” da gestão municipal, o que fez a nossa heroína das mulheres? Onde estavam os vídeos emocionados da Dra. Rayssa? Onde estava a cruzada contra o machismo estrutural? Onde estavam os discursos de que “não podemos nos calar”?

Não estavam. Rayssa Furlan nunca se pronunciou. Nem um pio.
A pauta de proteção à mulher, para a primeira-dama, parece funcionar como um guarda-chuva: só é aberto quando a chuva cai nela mesma ou quando rende dividendos eleitorais contra adversários. Quando a tempestade de agressões desaba sobre as esposas dos secretários do prefeito, o guarda-chuva misteriosamente enguiça.
No máximo, assistimos a exonerações burocráticas feitas na surdina para “conter danos de imagem” da prefeitura, sem uma palavra real de acolhimento às vítimas ou de repúdio feroz aos agressores – que, até ontem, eram “homens de confiança” da gestão Furlan.
Violência contra a mulher é um mal que precisa ser combatido com rigor e seriedade em todas as suas formas, seja na política ou dentro de casa. Mas usar essa pauta sagrada e dolorosa como escudo de vitimização eleitoral, enquanto se escolheu o silêncio conveniente e cúmplice diante de homens que espancavam e aterrorizavam mulheres dentro de sua própria base política, não é sororidade. É apenas cinismo.