Mesmo após a contundente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determinou o seu afastamento cautelar do cargo, o ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan, adotou uma estratégia agressiva nas redes sociais para tentar salvar seu capital político. Em publicações recentes, Furlan tem se gabado intensamente de um pacote de entregas e realizações estruturais na capital. O que o ex-gestor omite, no entanto, é que o “canteiro de obras” do qual ele se orgulha foi inteiramente erguido com recursos de emendas parlamentares federais — as mesmas que agora estão no centro de investigações da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) por desvios e superfaturamento.
Nos bastidores da política amapaense, interlocutores apontam que a melhor estratégia de oposição é justamente estabelecer um contraponto realista sobre a origem desses projetos, desmontando o discurso solitário do ex-prefeito. Na realidade ele mostra que todas essas obras que ele se gaba de ter feito e dizer que isso tudo só foi possível porque o Davi mandou dinheiro da emenda, porque o deputados trouxeram o projeto e que o governo colaborou”, analisa uma fonte de bastidor.
Além disso, analistas lembram a contradição no discurso de Furlan, que hoje tenta se colocar como uma “nova força” contra velhos grupos políticos. “A dita ‘turma do atraso’ que ele tanto ataca hoje é a mesma da qual ele fazia parte no passado recente, já que ele era líder do governo de Waldez Góes. E o próprio Waldez está hoje exatamente somando palanque com esse grupo”, pontua a mesma fonte, expondo a incoerência política que cerca o caso.
As obras e os padrinhos: O mapa das emendas que Furlan omite
Nas postagens em que exalta sua gestão, Furlan foca em três grandes frentes de obras na cidade, todas custeadas por articulações de senadores e deputados federais do Amapá, mas que agora carregam a mancha da suspeita:
- O Hospital Municipal de Macapá (R$ 70 milhões): A joia da coroa da propaganda de Furlan é a construção da unidade de saúde. O projeto, orçado em cerca de R$ 70 milhões, foi viabilizado por meio de aportes federais e emendas da bancada. Contudo, essa mesma obra tornou-se o epicentro da crise: a investigação aponta para o direcionamento ilícito do contrato para a empreiteira Santa Rita Engenharia e desvio de finalidade dos recursos, sendo o principal estopim para o afastamento do ex-prefeito pelo ministro Flávio Dino.
- O Escândalo das “Emendas Pix” (R$ 724,8 milhões): Furlan frequentemente exibe em seus vídeos os extensos quilômetros de pavimentação asfáltica e aplicação de blocos intertravados (bloquetes) nas vias urbanas e rurais de Macapá. O que ele chama de “maior programa de pavimentação da história” foi inflado por um montante de R$ 724,8 milhões em transferências especiais (as chamadas emendas Pix). A CGU identificou que esses repasses ocorreram sem transparência, sem projetos básicos adequados e com fortes indícios de superfaturamento, o que levou o STF a congelar mais R$ 129 milhões que seriam enviados ao município.
- Reformas e Equipamentos: Outras intervenções urbanas exaltadas pelo ex-prefeito, como a revitalização de complexos sociais como o Macapá Criança e o CEU das Artes, e a compra de caminhões compactadores de lixo, também foram integralmente pagas por emendas da bancada — incluindo recursos geridos pela Codevasf e articulações de parlamentares como o ministro Randolfe Rodrigues, e os deputados Acácio Favacho e Vinícius Gurgel.
Discurso de “perseguido” esbarra em relatórios técnicos
Enquanto Furlan tenta emplacar a narrativa de que é um “prefeito realizador que incomoda o sistema”, os relatórios da CGU e as investigações da Polícia Federal mostram um cenário técnico alarmante. Investigadores apontam que a facilidade na liberação dos recursos — especialmente a falta de rastreabilidade das emendas Pix — criou o ambiente perfeito para o superfaturamento de insumos, como o asfalto e os bloquetes de concreto.
O STF e a PF agora cruzam os dados dos repasses desses mais de R$ 724 milhões com as medições reais das obras feitas em Macapá. Para a oposição e para os juristas que acompanham o caso, a tentativa de Furlan de “se gabar” das obras é um tiro no pé: ao reivindicar a paternidade absoluta da execução desses projetos, o ex-prefeito acaba se vinculando ainda mais diretamente aos contratos fraudados que culminaram na sua queda.