A política amapaense é um teatro onde a tragédia e a farsa frequentemente se encontram no mesmo palco. A derrocada de Antônio Furlan, que despencou do pódio de “prefeito mais votado do Brasil” (com seus outrora inquestionáveis 85% de aprovação na reeleição de 2024) para a condição de um ex-gestor encurralado pela Polícia Federal e defenestrado pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de ganhar ares de tragicomédia no Tribunal Superior Eleitoral.
O questionamento que ecoa nos bastidores do poder do Amapá hoje é um só, carregado da mais pura ironia: será que o ex-prefeito afastado vai pedir de joelhos para que Paulo Lemos (PSOL) retire o processo contra ele, igual como fez ao pedir piedade de José Sarney, para falar com Gilvan e diminuir as porradas?

Afinal, Furlan parece acreditar que raios caem duas vezes no mesmo lugar. Recentemente, ele testemunhou o que seus aliados chamaram de “milagre”: a súbita desistência do ex-senador Gilvam Borges de um recurso no TSE que pedia sua inelegibilidade. O problema é que milagres eleitorais têm perna curta — o Ministério Público Eleitoral (MPE) tratou de estragar a festa, assumindo a titularidade da ação e mantendo o julgamento vivo, que já amarga um placar de 2 a 1 pela cassação e inelegibilidade do ex-mandatário.
Se a tática for apelar à misericórdia dos adversários, haja joelho. É preciso lembrar que há um terceiro processo na fila. O cerco se fecha em três frentes letais: a ação que já corre no TSE (com o placar desfavorável), uma segunda Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), e uma Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (AIME) cujo parecer já sai no curso desta semana.
Com três manifestações pela cassação a caminho, o ex-prefeito já pode acionar a produção da TV Globo e pedir música no Fantástico. O consolo matemático para sua defesa é que as penas na Justiça Eleitoral não são somadas. Não serão 24 anos no estaleiro, mas os inevitáveis 8 anos de inelegibilidade que se desenham no horizonte são mais do que suficientes para enterrar qualquer ambição de poder.
Diante desse cenário cristalino, a grande curiosidade jornalística é: o que dirá agora o Dr. Fabiano Leandro, advogado de defesa de Furlan? A estratégia jurídica até o momento tem sido peculiar, beirando o negacionismo processual. O causídico tem se notabilizado por “inventar” narrativas alternativas para decisões óbvias, minimizando despachos desfavoráveis e tentando convencer a opinião pública de que a inelegibilidade iminente é mera “distorção de blogs”. Com o laço se apertando no TSE e o parecer da AIME saindo do forno, será fascinante observar qual malabarismo retórico será utilizado para dizer que uma tripla cassação é, na verdade, uma vitória.

O Colapso Ético e o Fantasma do STF
Toda essa chicana eleitoral, no entanto, é apenas a ponta do iceberg de um colapso ético sem precedentes. É fundamental não perder de vista o motivo principal pelo qual Furlan não despacha mais do Palácio Laurindo Banha desde março de 2026. A canetada do Ministro Flávio Dino, do STF, que o afastou do cargo, foi amparada pelas descobertas acachapantes da Operação Paroxismo.
Enquanto a defesa tenta fabricar cortinas de fumaça, os autos processuais são implacáveis: há indícios robustos de um esquema milimétrico de direcionamento de licitações na Secretaria Municipal de Saúde, focado nas obras do Hospital Geral Municipal de Macapá, um dreno estimado em absurdos R$ 70 milhões.
A investigação da Polícia Federal desnudou um amadorismo assombroso na suposta lavagem de dinheiro. O uso de funcionários de sua própria clínica particular — o Instituto de Medicina do Coração — para o transporte físico de valores em espécie mostra a certeza da impunidade que reinava na gestão. A quebra de sigilos bancários e telemáticos implodiu a blindagem familiar, tragando até a ex-primeira-dama, Rayssa Furlan, para o centro do furacão financeiro atípico. E mais recentemente, a Operação Palanque Digital revelou o desvio de outros R$ 25 milhões para financiar milícias digitais contra opositores.
Tanta arrogância no uso da máquina pública já dava sinais de transbordamento há tempos. O lamentável episódio do “mata-leão” em jornalistas em 2025 não foi um lapso de controle emocional, mas o sintoma mais puro de um autoritarismo crônico, de um gestor que acreditava ser dono da cidade e imune a qualquer escrutínio democrático.
Hoje, Furlan colhe as tempestades de sua própria hubris. Sua recente filiação ao PSD, arquitetada sob as bênçãos e o pragmatismo de Gilberto Kassab para ser o nome forte ao Governo do Estado em 2026, virou pó. Kassab não costuma apostar em cavalos mancos, muito menos em políticos cujo futuro depende de implorar por desistências de adversários ou de contorcionismos retóricos de advogados para esconder inelegibilidades múltiplas.
O ex-prefeito pode até tentar ensaiar um pedido de perdão a Paulo Lemos. Mas no tribunal implacável dos autos da Polícia Federal e da Justiça Eleitoral, não há milagre que salve um projeto político construído sobre o pântano das verbas da saúde.