Se a administração pública no Brasil fosse avaliada como um espetáculo de ilusionismo, o ex-prefeito afastado pelo STF , Antônio Furlan, sem dúvida levaria o prêmio máximo. Afastado do cargo em março de 2026 por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) — em meio a um enredo policialesco envolvendo lavagem de dinheiro, sua clínica particular e as obras fantasmas do Hospital Geral —, o autoproclamado “prefeito mais votado do país” acaba de revelar mais um truque em seu vasto repertório. O palco da vez? A Macapá Previdência (MacapáPrev). O truque? Fazer a folha de pagamento saltar de módicos R$ 3 milhões para astronômicos R$ 12 milhões mensais em um piscar de olhos.
O Tribunal de Contas do Estado do Amapá (TCE-AP) decidiu acender as luzes do teatro e determinou a instauração de uma Tomada de Contas Especial (Processo nº 004283/2026-TCE/AP). A auditoria revelou que a gestão Furlan promoveu um verdadeiro “mutirão da alegria” entre o final de 2023 e o início de 2024. Foram 331 novas aposentadorias concedidas a toque de caixa. Estudos de impacto financeiro e atuarial? Nenhum. Afinal, para que se preocupar com a matemática atuarial do futuro quando o objetivo imediato é garantir 85% de aprovação na reeleição?
Mas a generosidade da gestão com o dinheiro alheio não parou no volume. O relatório expõe uma política de “Robin Hood às avessas”. Benefícios foram concedidos acima do teto constitucional, convenientemente ignorando o “abate-teto” obrigatório. Some-se a isso as progressões funcionais retroativas distribuídas ao arrepio do Plano de Cargos e Salários, e temos o manual perfeito de como implodir um Regime Próprio de Previdência Social.
O requinte de audácia, contudo, mora nos detalhes operacionais das fraudes. A auditoria flagrou um usuário vinculado a um ex-servidor (já desligado, vejam só a conveniência) realizando 108 liquidações manuais de contratos de empréstimos consignados, totalizando mais de R$ 5 milhões. Essa manobra “apagou” dívidas no sistema e limpou artificialmente as margens consignáveis, permitindo que pessoas sem capacidade de endividamento tomassem novos empréstimos. É um modelo de gestão tão inovador que permite a ex-funcionários operarem liquidações milionárias do além.
O conselheiro Regildo Wanderley Salomão classificou a lambança como “gestão temerária”. É um eufemismo polido e institucional. O que se desenha de forma irrefutável nos autos é o aparelhamento metódico de uma autarquia para sangrar os cofres públicos.
A farra previdenciária junta-se agora ao já denso anedotário criminal do clã, desnudado pela Operação Paroxismo da Polícia Federal. Enquanto os funcionários do Instituto de Medicina do Coração e os sigilos quebrados de sua esposa, a ex-primeira-dama Rayssa Furlan, escancaram o duto de R$ 70 milhões na Secretaria Municipal de Saúde, o rombo da MacapáPrev prova que a voracidade do grupo não poupou sequer a aposentadoria dos servidores municipais.

E agora mister M?
Quando, em 2025, aliados políticos do ex-prefeito resolveram calar as críticas da imprensa com “mata-leões” em jornalistas, já estava cristalino que a truculência e o autoritarismo eram apenas a cortina de fumaça necessária para blindar um projeto de poder alicerçado na irresponsabilidade fiscal e moral.
Recentemente filiado ao PSD sob as bênçãos complacentes de Gilberto Kassab, Dr. Furlan pavimentava seu caminho para o Governo do Estado em 2026. A realidade imposta pelos fatos e pelos tribunais, porém, diverge de seus delírios de grandeza. Com o Ministério Público agora acionado para apurar improbidade administrativa e responsabilidade penal no caso MacapáPrev, o único projeto de longo prazo que o ex-prefeito parece ter consolidado com sucesso não é sua ascensão ao Palácio do Setentrião, mas sim um próspero mercado de trabalho para bancas de advocacia criminal.
A MacapáPrev é a prova definitiva de que a alardeada “gestão de resultados” de Furlan, de fato, entregou resultados. Restou apenas aos amapaenses a indigesta missão de pagar essa fatura milionária.