Existe uma ciência sutil na política amapaense que não se ensina nos livros de ciência política, mas que o senador Lucas Barreto (PSD) domina com mestria absoluta: a arte do reboque eleitoral. Sozinho, com pernas próprias e projeto autônomo, Lucas dificilmente conseguiria se eleger síndico do seu próprio condomínio. No entanto, munido de uma incrível habilidade de identificar quem tem tração e se engatar no para-choque certo, o “Encostado Profissional” já acumula mais de três décadas de vida pública sem nunca ter precisado fazer a força de puxar a própria carroça.
A biografia do senador é um grande tratado sobre dependência estratégica. Nos anos 1990, quando despontou na Assembleia Legislativa do Amapá (ALAP), vendeu a imagem do jovem talentoso e atuante. O tempo, porém, cuidou de mostrar que a verdadeira vocação de Lucas não era liderar, mas sim encontrar um ombro forte onde pudesse encostar a cabeça — e o mandato.
Quando tentou voar em carreira solo e sem guincho nas disputas ao Governo do Estado em 2010 e 2014, o resultado foi o esperado: sem a tração alheia, a candidatura não saiu do atoleiro. Percebendo que o esforço próprio não rendia frutos, ativou o modo “Encostado”.
Em 2018, na disputa para o Senado, a estratégia do gancho perfeito funcionou com precisão cirúrgica. Embalado na onda oposicionista que impulsionou a chapa majoritária, pegou carona e garantiu sua vaga em Brasília. Mas para não correr o risco de ficar sem combustível no segundo turno daquela eleição estadual, esqueceu anos de discursos inflamados e correu para se pendurar no Palácio do Setentrião, abraçando o então candidato Waldez Góes. Afinal, quem precisa de coerência quando se tem um cabo de aço bem firme ligado ao poder de plantão?

Uma vez instalado no Congresso Nacional, o instinto de conservação do “Encostado” falou mais alto. Olhou para o cenário federal, viu onde estava a máquina e se pendurou sem qualquer pudor na vice-liderança do governo de Jair Bolsonaro. A ideologia? Um detalhe irrelevante perto da comodidade de ser rebocado por emendas e cargos federais.

Com o vento mudando de direção nos últimos anos, Lucas Barreto não perdeu tempo e tratou de trocar de gancho. Enxergando o crescimento do prefeito de Macapá, Dr. Furlan, correu para se encostar na traseira do fenômeno das pesquisas locais. Hoje, o senador surge sorridente em cada foto de inauguração, cortando fitas e carimbando verbas como se fosse o grande motor das obras — quando, na verdade, é apenas o passageiro do banco de trás aproveitando o ar-condicionado.
E assim chegamos ao capítulo mais recente da saga: percebendo que a máquina da Prefeitura de Macapá estava a todo vapor e que a popularidade de Dr. Furlan era a boia de salvação perfeita para a corrida eleitoral, o nosso “Encostado Profissional” não pensou duas vezes. Mirou nas costas do prefeito, grudou no seu palanque, encheu a gestão municipal de emendas carimbadas e garantiu um lugar cativo em cada foto de obra inaugurada na capital.
O problema é que, mesmo se encostando no padrinho mais forte do momento, a vida do passageiro não está fácil. Ao contrário de outras viagens onde o reboque o levou direto ao topo, desta vez a tração alheia parece não ser suficiente para fazê-lo engrenar uma vitória folgada.
Apesar de toda a grudeira política, das caronas nas caminhadas e da tentativa desesperada de pegar carona no “efeito Furlan”, a candidatura do senador penosamente patina nas pesquisas, travada no pelotão de intermediários enquanto a própria esposa do prefeito, Rayssa Furlan, dispara na liderança disparada para o Senado.

O diagnóstico para o “Encostado” é cruel: ele descobriu da pior forma que se pendurar em um “mascarado” de votos nem sempre garante transferência automática de pontos. Dr. Furlan não é e nunca foi herói, mas mesmo com essa capa que vestiu, não consegue milagre quando a carga rebocada está gasta demais pelo tempo e pelo oportunismo.