Enquanto o Amapá se prepara para uma das eleições mais decisivas de sua história recente, um nome que deveria estar no centro do debate político simplesmente desapareceu dos palcos, das entrevistas e dos microfones abertos. Trata-se de Rayssa Furlan, ex-primeira-dama de Macapá e candidata ao Senado pelo Podemos, e de seu marido, o ex-prefeito Antônio Furlan (PSD). A ausência não é coincidência — é estratégia. E os motivos, infelizmente, sobram.
Um Casal, Múltiplas Investigações
O Hospital que Nunca Foi Construído — e os Milhões que Desapareceram
A Operação Paroxismo, da Polícia Federal, expôs o que pode ser um dos maiores esquemas de corrupção da história recente do Amapá: o desvio de aproximadamente R$ 128,9 milhões em emendas parlamentares destinadas à construção do Hospital Geral Municipal de Macapá, obra orçada em R$ 69,3 milhões e que nunca saiu do papel como prometido. A operação foi tão grave que o ministro Flávio Dino, do STF, determinou o afastamento cautelar de Antônio Furlan da prefeitura. No dia seguinte, sem sequer mencionar a investigação em sua carta, Furlan renunciou ao cargo.

As imagens que vieram à tona são de filme policial: um empresário chegando ao Banco do Brasil, retirando R$ 400 mil em espécie e entregando o dinheiro em uma mochila ao motorista pessoal do então prefeito. Anotações encontradas na casa desse motorista revelam depósitos fracionados somando R$ 3 milhões, supostamente parte de um esquema estruturado de propinas.
A Empresa da Esposa no Centro da Lavagem de Dinheiro

Se o marido caiu, a esposa não escapou ilesa. A Polícia Federal identificou que a empresa RCFS Médicos LTDA, da qual Rayssa Furlan é sócia majoritária, recebeu movimentações bancárias atípicas superiores a R$ 3 milhões — valores que, segundo os investigadores, podem estar diretamente conectados ao desvio de recursos públicos da obra do hospital. Diante das perguntas da imprensa, a resposta de Rayssa foi uma só: silêncio absoluto. Nem ela, nem sua defesa, se manifestaram sobre as suspeitas.
A Milícia Digital Paga com Dinheiro Público
Como se as suspeitas de corrupção na saúde não bastassem, em maio de 2026 a PF deflagrou a Operação Palanque Digital, revelando um esquema ainda mais sofisticado: o desvio de R$ 25 milhões dos cofres públicos para financiar uma verdadeira milícia digital, estruturada dentro da própria prefeitura, com o objetivo de promover a imagem de Furlan e atacar sistematicamente seus adversários políticos. Os investigadores encontraram provas do uso de inteligência artificial para produzir deepfakes — vídeos, áudios e imagens manipuladas — em uma operação de desinformação em larga escala. Trinta e cinco mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra ex-secretários, influenciadores e uma agência de publicidade inteira montada para blindar a imagem do casal.

Risco de Inelegibilidade
Como se não bastasse o cerco da Polícia Federal, o Ministério Público Eleitoral também entrou na disputa: pediu a continuidade de uma Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (AIME) contra Furlan e seu ex-vice, Mário Neto, apontando abuso de poder político e econômico durante as eleições de 2024. O parecer é claro sobre a gravidade do caso e mantém viva a possibilidade de inelegibilidade do ex-prefeito.
Uma Candidatura de Fachada?
Diante do cerco jurídico, a estratégia do casal ficou evidente: transferir o capital político de Furlan para Rayssa, na tentativa de manter influência e, segundo análises da imprensa local, preservar o foro privilegiado da família. Mas quando as investigações sobre a própria empresa de Rayssa se intensificaram, ela recuou da pré-candidatura ao Senado — um recuo que muitos leem como confissão de fragilidade diante das provas acumuladas pela PF.
O Desprezo Revelado pelas Próprias Palavras
Além dos processos e investigações, Rayssa expôs sua visão sobre o eleitorado do interior ao afirmar, durante visita a Laranjal do Jari, que a população da região “depende de esmola” e vive um “interminável atraso”. A fala gerou revolta imediata entre moradores, artistas e lideranças locais, e culminou em uma nota formal de desagravo na Assembleia Legislativa do Amapá — mais um episódio que revela o distanciamento do casal em relação à realidade do povo que dizem representar.
O Silêncio Como Estratégia
Não é difícil entender por que Rayssa e Antônio Furlan evitam debates, entrevistas e qualquer confronto direto com jornalistas e adversários. Cada pergunta é um risco. Cada palestra pública é uma oportunidade para que sejam questionados sobre os R$ 128,9 milhões desviados, sobre os R$ 3 milhões que passaram pela empresa de Rayssa, sobre a milícia digital paga com dinheiro do contribuinte, ou sobre o desprezo demonstrado às comunidades do interior.
Enquanto outros candidatos percorrem rádios, debates e sabatinas explicando propostas, o casal Furlan parece ter escolhido o caminho do silêncio — um silêncio que, para muitos eleitores, fala mais alto do que qualquer discurso de campanha.
O Amapá merece candidatos que respondam perguntas, não que fujam delas.
As investigações mencionadas ainda estão em andamento. Antônio Furlan nega irregularidades. Não há condenação definitiva até o momento.